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Ana Paula Mateus

De Profundis

Há-de haver um espelho onde os meus olhos voltem a ser os meus olhos. Onde o brilho espelhado seja o da minha alegria, tão igual à de quando era menina e corria para a escola com a pasta apertada contra o peito para sentir o cheiro do pão com queijo e marmelada, que haveria de comer no recreio de todas as ilusões. Há-de haver um espelho que me devolva o norte e a luz. Não sei onde, talvez atrás dos montes da minha infância, com as tangerineiras carregadas de frutos inchados, rubros, que me manchavam as mãos e as perfumavam de sumo para todo o dia. Há-de haver numa noite, um espelho onde eu não faça contas à vida nem às rugas. Um espelho redondo, sem princípio nem fim, como os dias de esperas eternas. Há-de haver um espelho onde eu não escreva o teu nome com o dedo, devagar, como só devagar se pode falar das profundezas do mar sem fim, de poesia e de sonhos, de castelos e de deuses. Há-de haver um espelho, algures, um qualquer dia, que responda. Que não me mostre os meus fantasmas. Um espelho de água que engula o rasto das minhas lágrimas. E me devolva o arrepio.